Se Conselho Fosse Bom...

novembro 01, 2017

Diz o ditado popular que se conselho fosse bom não se dava, se vendia. Pois bem, esta semana li uma reportagem sobre um garoto de 11 anos que começou a vender conselhos no metrô de Nova York para qualquer pessoa de qualquer idade, ele cobra por seus serviços apenas dois dólares. O “consultório” do garoto conselheiro são apenas uma mesa e duas cadeiras e um cartaz de papelão que divulga seus serviços. O garoto está fazendo sucesso, várias pessoas se assentam e abrem seus corações contando seus problemas de natureza pessoal e profissional e saem alegres e satisfeitas com o conselho juvenil, depois, é claro de pagarem os dois dólares.

Esta notícia nos faz pensar sobre o fato de que as pessoas carecem de conselhos e orientações na vida. Todos nós necessitamos de alguma percepção, orientação, discernimento que nos ajude a tomarmos decisões. Isto fundamenta-se no fato de que ninguém por si só se basta, além do mais, um olhar de outro ponto de vista pode ser útil e importante para nós num momento decisivo de nossas vidas. Enfim, o homem carece dos conselhos de outros, pois ele é limitado e não é autossuficiente e de “quebra” seu coração por si só tende a insensatez.

Por causa desta realidade humana, Deus se revela com o “Deus Conselheiro” (Is 9:6). São incontáveis os conselhos que o Senhor nos oferece constantemente nas Escrituras para que andemos sabiamente. Ele quer nos instruir, nos ensinar o caminho que devemos seguir, ele quer nos aconselhar (Sl 32:8). Ele, como um bom amigo, adverte-nos: Escolha a vida e não a morte! (Dt 30:19). Guarde seu coração porque dele procede a fonte da vida (Pv 4:23). Não seja precipitado, pense bem (Pv 19:2). Proteja-se da imoralidade (Pv 5,6). Perdoe sempre, busque a reconciliação, ore, adore, medite…enfim há muitos e bons conselhos do nosso Deus para nós. Infelizmente é nossa obstinação e teimosia que faz com que não lembremos ou obedeçamos esses preciosos conselhos.

Além do Senhor ser o bom conselheiro, ele nos chama a buscar conselhos em outros. Também são inúmeras as recomendações das Escrituras, principalmente no livro de Provérbios, sobre a necessidade de ouvir conselhos:

  • “Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança.” (Pv. 11:14).
  •  “O caminho do insensato aos seus próprios olhos parece reto, mas o sábio dá ouvidos aos conselhos.” (Pv. 12:15)
  •  “Onde não há conselho fracassam os projetos, mas com os muitos conselheiros há bom êxito.” (Pv. 15:22).
  •  “Como o óleo e o perfume alegram o coração, assim, o amigo encontra doçura no conselho cordial.” (Pv. 27:9).

 Este mesmo espirito permanece na igreja no NT:

  • “E certo estou, meus irmãos, sim, eu mesmo, a vosso respeito, de que estais possuídos de bondade, cheios de todo o conhecimento, aptos para vos admoestardes uns aos outros.” (Rm 15:14)
  • “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Col. 3:16)
  • “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.” (Hb 10.25).

 Eu bem sei, como pastor, a importância de receber e dar conselhos. Uma das atividades pastorais que frequentemente sou chamado a fazer é aconselhar. Muitas vezes as pessoas me procuram com suas dúvidas, angústias, lutas e indecisões buscando algum conselho da minha parte que lhe possam ajudar no momento crítico de sua vida. Também recorro alguns irmãos que compõe minha liderança ministerial para ouvi-los na busca de decisões eclesiásticas sábias. Não posso, obviamente, esquecer minha esposa, uma excelente e sábia conselheira que sempre me escuta e me orienta. Alguém sabiamente já disse, que a esposa muitas vezes é o Urim e o Tumim[i] de seu esposo.

Diante de todo o valor e necessidade de conselhos, quero também oferecer alguns conselhos práticos sobre dar e receber conselhos.

Conselhos para dar conselhos

  1. Ouça com cuidado

Um dos conselhos que a Palavra de Deus nos faz constantemente é ouvir. Tiago nos lembra disto ao dizer: “…todo o homem seja pronto para ouvir…” (Tiago 1:19). O ditado popular também nos lembra desta mesma verdade preciosa: “Falar é prata, escutar é ouro”.  Portanto ouça com cuidado aquilo que está sendo dito, conheça a situação o máximo possível e procure esclarecer tudo. Seja um bom ouvinte, ativo, paciente e amoroso.

  1. Não tome decisões no lugar da pessoa

Quando é uma questão de natureza pessoal, de uma decisão ou escolha que não está envolvido um caráter moral no ato, não procure automaticamente dizer o que a pessoa deve ou tem que fazer, não tire a responsabilidade dela em tomar a decisão. Procure orientar a fim de que a pessoa possa discernir melhor o que se deve fazer. Ao longo dos meus anos e dos inúmeros momentos em que fui chamado a dar um conselho notei que boa parte das decisões não eram necessariamente questões morais, do tipo certo ou errado, mas questões relacionadas ao que é melhor, mais sábio, mais excelente.

Creio que é neste sentido que Paulo ora para que os filipenses possam ser capazes de “…aprovar as coisas excelentes” (Fp 1:10), ou seja, ter discernimento e fazer escolhas mais sábias na vida. Uma razão prática para você não tomar determinadas decisões no lugar de uma outra pessoa é que, caso seu conselho cause dificuldade ou prejuízo e esta pessoa se sinta amargurada, chateada pelo que está passando fruto de seu conselho, ela poderá lhe culpar pelo que está passando, tentando se eximir de sua responsabilidade.

  1. Não tente aconselhar se você não sabe.

Reconheça humildemente seus limites e capacidades. Se você não tem o que dizer, então não diga nada. Se você não se sente qualificado ou com um conhecimento suficiente sobre algo para aconselhar então não aconselhe! Seja humilde e sábio, seja honesto e sincero, no mínimo dirija seu ouvinte a alguém que você sabe que terá melhor capacidade e sabedoria para ouvi-lo e aconselhá-lo.

  1. Não obrigue a pessoa a seguir seu conselho

As Escrituras contam que quando Absalão, rejeitou o conselho de Aitofel, este vendo que seus conselhos não eram seguidos, voltou para sua cidade, pôs em ordens seus negócios, enforcou-se (II Sm 17:23). Certamente você não precisa ficar tão desesperado assim quando alguém não lhe ouvir seu conselho. Saiba que a pessoa não tem que seguir seu conselho, ela pode discernir que seja um mau conselho e que ouviu um outro conselho melhor. Descanse sobre isso e deixe a pessoa viver com a sua decisão.

Conselhos para receber conselhos

  1. Julgue o que você ouviu

Lembre-se o conselheiro não é perfeito, ele não tem uma conexão direta com a voz de Deus. Ele é pecador e sujeito as imperfeições. Portanto, julgue, avalie e pese bem o conselho dele. Muitas vezes, movidos por desespero aquele que busca conselho escuta qualquer coisa e sujeita-se a qualquer orientação, mesmo que esta seja estúpida e insensata.

  1. Ouvir ímpio?

Bem-aventurado o homem que não ouve o conselho dos ímpios, diz a Escritura (Sl 1:1). Obviamente, o contexto aqui é ouvir ímpios que lhe levarão para longe de Deus e da Palavra, que lhe desviarão da verdade. Não se refere a outras áreas onde todos homens detém, pela graça comum, sabedoria para orientar outros. Ouvi muitos bons conselhos de um médico cardiologista sobre o cuidado que devo ter com minha saúde. Como na medicina, há outras áreas da vivência humana que uma pessoa não-cristã poderia nos instruir. Sou, porém, um crítico da busca por parte de crentes a conselheiros profissionais descrentes, cuja cosmovisão e valores são absolutamente contrários as Escrituras.

  1. Não fique dependente em tudo

Cuidado para não se tornar dependente de conselheiro para tudo. Isto não é o propósito de Deus para a vida de ninguém. Tal dependência é ruim e contrária a vontade de Deus. Já ouvi de igrejas em que seus membros pedem conselho para tudo, incluindo questões mais simples e banais da vida, elas são orientadas pela liderança da igreja a viverem pedindo conselhos a seus discipuladores. Elas não podem dar um passo na vida sem pedir um conselho de seu tutor espiritual. O que Deus quer é que cada um de nós cresça em graça e sabedoria, que não sejamos meninos dependentes e escravizados sempre a opiniões de outros.

  1. Se necessário busque mais de um conselheiro

Nunca custa demais lembrar que às vezes ouvir mais de uma pessoa fará bem. Se caso haja harmonia entre os conselhos isto talvez seja uma boa direção a seguir. Além do mais os conselhos divergentes podem ser úteis para você melhor tomar uma decisão.

  1. Não procure ouvir o que você quer ouvir

Não vá ao conselheiro com sua decisão já tomada e buscando apenas ratificar aquilo que você tomou como decisão a priori. Se já sabe o que você deve fazer então faça, mas não procure ouvir apenas aquilo que você quer ouvir, que seu coração deseja ouvir.

  1. Busque conselheiros sábios

Um menino de 11 anos aconselhando num metrô só aponta a insanidade, solidão e o desespero do homem moderno.  Menino de 11 anos não passa de um menino e não sabe nada da vida. Mas muitas vezes o fato de ser uma pessoa de idade, até mesmo velhos, não implica que este conselheiro é sábio. Velhice não é necessariamente sinônimo de sabedoria. Há velhos tolos! O que se deve buscar são pessoas experimentadas na vida e na Palavra, com maturidade espiritual, cheias do Espírito, vistas numa vida santa, sensata e temente. Deus, pela sua graça, tem levantados estas pessoas, para a edificação do corpo de Cristo, podem ser poucas, infelizmente, mas elas existem pela graça de Deus. Então procure-as e as ouça quando precisar.

Por fim, lembre-se: conselho bom é de graça, porque na verdade, um bom conselho não tem preço, ele é, na realidade, um ato da graça de Deus para com o homem.

Pr. Luiz Correia. 

[i]  Urim e Tumim era um meio que os sacerdotes judeus usavam para determinar a vontade de Deus. Quando era preciso tomar uma decisão ou escolha importante, os sacerdotes podiam recorrer ao Urim e Tumim. No Antigo Testamento o povo pedia a orientação de Deus quando tinham de tomar uma decisão importante. Quando Deus não dava uma revelação por meio de um profeta, os sacerdotes lançavam sortes para encontrar uma resposta (Números 26:55-56). O Urim e Tumim provavelmente era uma forma de lançar sortes, o que está por trás era de tal prática não era uma questão de mera casualidade, mas a lógica de que que Deus está no controle de tudo, até mesmo o resultado de lançar sortes (Provérbios 16:33). Deus decidia o resultado, por isso Ele podia revelar Sua vontade assim.

 

Declaração Sobre Criação, Verdade, Arte e Pecado.Eu Sou Grato – Pr. Luiz Correia

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